Saturday, December 11, 2010

A casa da porta azul / The house with the blue door


Conforme já afirmara ao publicar o esboço deste trabalho, a casa que vemos foi inspirada numa outra do mundo real, e remete para algumas recordações do meu tempo de estudante, quando as férias eram passadas entre amigos nas serranias do Gerês.
Dias fantásticos, esses! Cada um era vivido como se fosse o último, sendo que um dia daqueles tempos parecia durar tanto como um ano actualmente, com a diferença de que aqueles eram muitas vezes mais ricos em acontecimentos do que este. E havia esse incrível sentimento de liberdade que desde cedo a vida se encarrega de transformar numa irrepetível utopia...
Voltando à casa: Situava-se a meio do ascendente par de quilómetros que separa a conhecida vila termal do seu parque de campismo, e diante dela se passava várias vezes de dia e de noite, nas alegres demandas entre um local e o outro. Recordo o seu vago ar de “chalet”, a sua estreiteza elegante e simples, o turquesa já desbotado da porta e beiral, e a minúscula estatueta de uma figura religiosa empoleirada no topo da empena, para não mencionar o omnipresente velhinho dormitando à entrada.
Não é frequente estas evocações poderem fazer-se acompanhar de uma fotografia, mas isso acontece desta vez: Aqui temos a inspiradora casa original numa longínqua Páscoa de 1988, embora a foto pudesse ter sido obtida em qualquer outro momento dessa década. Não a utilizei nem para o esboço nem para a pintura e só no final a fui procurar, apresentando-a aqui pela curiosidade de se poder perceber de que forma certas memórias são transpostas do real para o imaginário, com as diferenças e semelhanças que daí resultam. Acrescentaria que tudo o que envolve a casa na sua interpretação aguarelística foi inventado, pois à sua beira nunca existiu um lavadouro nem tão-pouco uma aldeia por detrás, para além de que a presença da neve nunca coincidiu com a minha; A própria zona encontra-se hoje descaracterizada por banalíssimas construções recentes e, a julgar pelo que vi em Junho deste ano, desta sua vetusta antecessora nada mais resta para além dumas arruinadas paredes mestras. Do velhinho, apenas o palpite de que ainda dormitará, mas agora de forma bastante mais permanente...

As written when I posted the sketch of this work, the house we see was inspired by one from the real world, and refers to some memories of my student days, when holidays were spent with friends in the mountains of Gerês.

Those were fantastic days! Each one was lived as if it was the last, and a day of those times seemed to last as long as a year today, with the difference that those were often richer in events than this. And there was also that incredible sense of freedom that life quicky manages to transform into an unrepeatable utopia ...
Back to the house: It was located halfway up the couple of kilometres that separate the well-known spa town from its campsite, and one passed in front of it several times a day or night, in the many jolly errands from a place to another. I remember its vague "chalet" appearence, its elegant and simple narrowness, the faded turquoise of the door and eaves, and a tiny statuette of a religious figure perched on the top of the gable, not to mention the ubiquitous old man asleep at the entrance.
It's not often that these evocations can be joined by a photo, but it happens this time: Here's the original inspiring house in a far Easter of 1988, although the picture could have been taken at any other time in that decade. I didn't use it either for the sketch or the painting, having looked for it only in the end, and showing it now for the curiosity of seeing how certain memories are transposed from real to imaginary, with the resulting differences and similarities. I would add that in the watercolor version, everything around the house was invented, because it never had a washing tank nearby, nor a village behind, as well as the the presence of snow never coincided with mine; The area itself is today uncharacteristic due to recent banal constructions, and judging by what I saw in June this year, nothing remains beyond some ruined main walls from this venerable predecessor. It's even possible that the old man may still asleep, but now for sure in a much more permanent way...
Papel Fabriano Artistico cold pressed 18x12,5cm - 300g/m2 (7"x 5" – 140lb)
Vendido / Sold


Ver mapa maior

Aspecto actual da casa (Actualização de Janeiro 2015)
The house as it looks today (Update from January 2015)

9 comments:

The4inONE said...

So beautiful! ♥♥

Paulo J. Mendes said...

Thank you, gracias, Mariana y Paula :))

Anonymous said...

I am in LOVE with the snow-capped mountains on the horizon! And the CYAN-colored trim on the chalet. JUST BEAUTIFUL.

::::sigh::::: :)

SKIZO said...

I enjoyed your
work very much

Paulo J. Mendes said...

Thank you, J. :)) This was my very first experience with snow. It's a very simple scene but also a personal favorite, for the wonderful memories it brings.

Have a great weekend!!

Villager said...

Ainda que o velhinho e a casa já lá vão, cá temos esta tão bela aguarela para os imortalizar.
Bom Domingo.

Lefrontier said...

É mesmo verdade, não é...? Aqueles dias de juventude, sobretudo os maravilhosos dias das férias grandes pareciam durar tanto como um ano agora e cheios de um total descomprometimento, uma absoluta liberdade que só é possível quando se é (mais) jovem... Saudades. Fico muito contente por o Paulo se ter "lançado" à neve; conhecendo os seus trabalhos como já os conheço, sei que é um novo campo onde o meu amigo nos irá eventualmente brindar com mais maravilhas. Também a mim me encantou a casinha com a empena azul. Trabalho conseguido. (Ten points) :)))

Paulo J. Mendes said...

Obrigado, amigos Villager e Eduardo: Certamente voltarei à neve, e só espero vir a ter a oportunidade de me inspirar no "modelo real".
Um duplo abraço!!

Paulo J. Mendes said...

Obrigado, Skizo :)))
Bom Domingo!